sábado, 29 de setembro de 2012

Pense nisso::.. SAUDADES


Foto: SAUDADE

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. 

A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colónia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. 

Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim "solitáte", solidão.

Uma visão mais especifista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica à esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia. A génese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana.

A origem etimológica das formas atuais "solidão", mais corrente e "solitude", forma poética, é o latim "solitudine" declinação de "solitudo, solitudinis", qualidade de "solus". Já os vocábulos "saúde, saudar, saudação, salutar, saludar" proveem da família "salute, salutatione, salutare", por vezes, dependendo do contexto, sinônimos de "salvar, salva, salvação" oriundos de "salvare, salvatione". 

O que houve na formação do termo "saudade" foi uma interfluência entre a força do estado de estar só, sentir-se solitário, oriundo de "solitarius" que por sua vez advém de "solitas, solitatis", possuidora da forma declinada "solitate" e suas variações luso-arcaicas como suidade e a associação com o ato de receber e acalentar este sentimento, traduzidas com os termos oriundos de "salute e salutare", que na transição do latim para o português sofrem o fenómeno chamado síncope, onde se perde a letra interna l, simplesmente abandonada enquanto o t não desaparece, mas passa a ser sonorizado como um d. E no caso das formas verbais existe a apócope do e final. 

O termo saudade acabou por gerar derivados como a qualidade "saudosismo" e seu adjetivo "saudosista", apegado à ideias, usos, costumes passados, ou até mesmo aos princípios de um regime decaído, e o termo adjetivo de forte carga semântica emocional "saudoso", que é aquele que produz saudades, podendo ser utilizado para entes falecidos ou até mesmo substantivos abstratos como em "os saudosos tempos da mocidade", ou ainda, não referente ao produtor, mas aquele que as sente, que dá mostras de saudades.

Alguns poemas....


SAUDADE

Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo 
em dicionários antigos e poeirentos 
e noutros livros onde não achei o sentido 
desta doce palavra de perfis ambíguos. 

Dizem que azuis são as montanhas como ela, 
que nela se obscurecem os amores longínquos, 
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas) 
a nomeia num tremor de cabelos e mãos. 

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro, 
seu segredo se evade, sua doçura me obceca 
como uma mariposa de estranho e fino corpo 
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas. 

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado 
desta palavra branca que se evade como um peixe? 
Não... e me treme na boca seu tremor delicado... 
Saudade... 

Pablo Neruda



:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
SAUDADE
Tu és o cálix; 
Eu, o orvalho! 
Se me não vales, 
Eu o que valho? 

Eu se em ti caio 
E me acolheste 
Torno-me um raio 
De luz celeste! 

Tu és o collo 
Onde me embalo, 
E acho consolo, 
Mimo e regalo: 

A folha curva 
Que se aljofara, 
Não d'agoa turva, 
Mas d'agoa clara! 

Quando me passa 
Essa existencia, 
Que é toda graça, 
Toda innocencia, 

Além da raia 
D'este horizonte— 
Sem uma faia, 
Sem uma fonte; 

O passarinho 
Não se consome 
Mais no seu ninho 
De frio e fome, 

Se ella se ausenta, 
A boa amiga, 
Ah! que o sustenta 
E que o abriga! 

Sinto umas magoas 
Que se confundem 
Com as que as agoas 
Do mar infundem! 

E quem um dia 
Passou os mares 
É que avalia 
Esses pezares! 

Só quem lá anda 
Sem achar onde 
Sequer expanda 
A dôr que esconde; 

Longe do berço, 
Morrendo á mingoa, 
Paiz diverso... 
Diversa lingoa... 

Esse é que sabe 
O meu tormento, 
Mal se me acabe 
Aquelle alento! 

Ah, nuvem branca 
Ah, nuvem d'oiro! 
Ninguem me estanca 
Amargo choro; 

E assim que passes 
Mesmo de largo... 
Vê n'estas faces 
Se ha pranto amargo. 

Tu és o norte 
Que me desvias 
De ir dar á morte 
Todos os dias; 

A larga fita 
Que d'alto monte 
Cerca e limita 
O horizonte! 

Tu és a praia 
Que eu sollicito! 
Tu és a raia 
D'este infinito! 

Se ha uma gruta 
Onde me esconda 
Á força bruta 
Que traz a onda; 

Á força immensa 
D'esta corrente 
D'alma que pensa, 
Alma que sente; 

Se ha uma véla, 
Se ha uma aragem, 
Se ha uma estrella, 
N'esta viagem... 

É quem eu amo, 
A quem adoro! 
E por quem chamo! 
E por quem choro! 

João de Deus, in 'Ramo de Flores'

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::


Figura: Quadro pintado em 1899 por Almeida Júnior.

Figura: Quadro pintado em 1899 por Almeida Júnior.

SAUDADE

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. 

A palavra 
vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colónia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. 

Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim "solitáte", solidão.

Uma visão mais especifista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica à esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia. A génese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana.

A origem etimológica das formas atuais "solidão", mais corrente e "solitude", forma poética, é o latim "solitudine" declinação de "solitudo, solitudinis", qualidade de "solus". Já os vocábulos "saúde, saudar, saudação, salutar, saludar" proveem da família "salute, salutatione, salutare", por vezes, dependendo do contexto, sinônimos de "salvar, salva, salvação" oriundos de "salvare, salvatione". 

O que houve na formação do termo "saudade" foi uma interfluência entre a força do estado de estar só, sentir-se solitário, oriundo de "solitarius" que por sua vez advém de "solitas, solitatis", possuidora da forma declinada "solitate" e suas variações luso-arcaicas como suidade e a associação com o ato de receber e acalentar este sentimento, traduzidas com os termos oriundos de "salute e salutare", que na transição do latim para o português sofrem o fenómeno chamado síncope, onde se perde a letra interna l, simplesmente abandonada enquanto o t não desaparece, mas passa a ser sonorizado como um d. E no caso das formas verbais existe a apócope do e final. 

O termo saudade acabou por gerar derivados como a qualidade "saudosismo" e seu adjetivo "saudosista", apegado à ideias, usos, costumes passados, ou até mesmo aos princípios de um regime decaído, e o termo adjetivo de forte carga semântica emocional "saudoso", que é aquele que produz saudades, podendo ser utilizado para entes falecidos ou até mesmo substantivos abstratos como em "os saudosos tempos da mocidade", ou ainda, não referente ao produtor, mas aquele que as sente, que dá mostras de saudades.

Alguns poemas....


SAUDADE

Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo 
em dicionários antigos e poeirentos 
e noutros livros onde não achei o sentido 
desta doce palavra de perfis ambíguos. 

Dizem que azuis são as montanhas como ela, 
que nela se obscurecem os amores longínquos, 
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas) 
a nomeia num tremor de cabelos e mãos. 

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro, 
seu segredo se evade, sua doçura me obceca 
como uma mariposa de estranho e fino corpo 
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas. 

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado 
desta palavra branca que se evade como um peixe? 
Não... e me treme na boca seu tremor delicado... 
Saudade... 

Pablo Neruda



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SAUDADE



Tu és o cálix; 
Eu, o orvalho! 
Se me não vales, 
Eu o que valho? 

Eu se em ti caio 
E me acolheste 
Torno-me um raio 
De luz celeste! 

Tu és o collo 
Onde me embalo, 
E acho consolo, 
Mimo e regalo: 

A folha curva 
Que se aljofara, 
Não d'agoa turva, 
Mas d'agoa clara! 

Quando me passa 
Essa existencia, 
Que é toda graça, 
Toda innocencia, 

Além da raia 
D'este horizonte— 
Sem uma faia, 
Sem uma fonte; 

O passarinho 
Não se consome 
Mais no seu ninho 
De frio e fome, 

Se ella se ausenta, 
A boa amiga, 
Ah! que o sustenta 
E que o abriga! 

Sinto umas magoas 
Que se confundem 
Com as que as agoas 
Do mar infundem! 

E quem um dia 
Passou os mares 
É que avalia 
Esses pezares! 

Só quem lá anda 
Sem achar onde 
Sequer expanda 
A dôr que esconde; 

Longe do berço, 
Morrendo á mingoa, 
Paiz diverso... 
Diversa lingoa... 

Esse é que sabe 
O meu tormento, 
Mal se me acabe 
Aquelle alento! 

Ah, nuvem branca 
Ah, nuvem d'oiro! 
Ninguem me estanca 
Amargo choro; 

E assim que passes 
Mesmo de largo... 
Vê n'estas faces 
Se ha pranto amargo. 

Tu és o norte 
Que me desvias 
De ir dar á morte 
Todos os dias; 

A larga fita 
Que d'alto monte 
Cerca e limita 
O horizonte! 

Tu és a praia 
Que eu sollicito! 
Tu és a raia 
D'este infinito! 

Se ha uma gruta 
Onde me esconda 
Á força bruta 
Que traz a onda; 

Á força immensa 
D'esta corrente 
D'alma que pensa, 
Alma que sente; 

Se ha uma véla, 
Se ha uma aragem, 
Se ha uma estrella, 
N'esta viagem... 

É quem eu amo, 
A quem adoro! 
E por quem chamo! 
E por quem choro! 

João de Deus, in 'Ramo de Flores'

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Beijos meus cheios de luz, paz, amor, fé e esperança!  















9 comentários:

Alfa & Ômega disse...

Rosane, querida, muito lindo seu post com explicação da palavra saudade, Eu adorei ler e saber a origem da palavra, tão bem explicadinho. Beijão! Lindo findi!

Elisabete disse...

Lindo post! Sei o que isso é: tenho muitas saudades da minha mãe. Bom domingo Rô

Lucelia Silva disse...

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