segunda-feira, 16 de abril de 2012

A ARTE DE DESFAZER NÓS por Frei Fabiano Aguilar Satler



A ARTE DE DESFAZER NÓS por Frei Fabiano Aguilar Satler

Amor de avó é diferente. Amor de mãe é carinho, ternura e proteção. Mas também é palmada no rabo, dedo em riste e cara séria, correções e castigos merecidos. Com a avó é diferente: resta-lhe apenas o lado brando da maternidade. Perna de avó é lugar de refúgio seguro, zona libertada da humanidade. Quem, diante de estripulias cometidas, não encontrou nas pernas e na barra da saia da avó proteção segura contra a mãe furiosa?

Com as minhas avós não era diferente. Na minha casa, a avó paterna tinha sua cadeira cativa na sala. Era lá que ela, quando nos visitava, passava o dia a fazer crochê. Consumia as horas do dia silenciosa a trançar com a sua agulha e linha aqueles intrincados desenhos geométricos. Eu costumava ficar ali sentado no chão, aos seus pés, feito gente em volta do fogão a lenha em dias de frio: aconchego. De vez em quando, ela levantava-se para ir à casa de banho, ao passo que eu, despreocupadamente, fazia de seus pés o meu pequeno urinol, não sem antes tomar o cuidado de abaixar-lhe as meias.

Em uma das ocasiões em que ela abandonou a sala momentaneamente, as pequenas mãos conseguiram alcançar a linha e o crochê tecido ao longo da tarde. A curiosidade da criança é inevitável: o que acontece se eu puxar essa linha aqui, antes desse monte de nós? E lá se foi todo o trabalho da tarde de minha avó. O leitor e leitora amigos conseguem imaginar o encantamento de uma criança perante o ato de puxar uma linha e fazer com que todo um emaranhado de fios e formas se desfaça graciosamente sem oferecer nenhuma resistência? Que coisa prazerosa para uma criança! E que desespero para a mãe... Ela começa a ralhar, zangada, mal põe os olhos na arte às avessas do filho. Mas a zanga dura somente até a chegada da avó que, com um sorriso compreensivo, dissipa qualquer mau humor. E a criança sorri inocente como quem diz orgulhosa: Olha como é gostoso! Fui eu quem fiz! (ou desfiz…)

Quando somos crianças, sentimo-nos alegres sem muito esforço. Basta uma bacia velha para escorregar barranco abaixo, uma bola velha e meio murcha para chutar, um pé de jabuticaba bem carregado para ser conquistado ou uma pipa para empinar. Coisas de criança. Crescemos e nos sofisticamos. Já não nos basta o calor do peito da mãe e das avós. Buscamos paixões hollywoodianas. Não nos basta a bola de futebol, no Natal: desejamos o carro do ano. Não nos bastam as histórias do Monteiro Lobato: queremos devorar Sartre e Nietzsche. Não nos basta o catecismo abreviado: ansiamos por arroubos místicos e milagres mediáticos.

Crescer é como o trançar de fios na ponta da agulha de crochê de minha avó. O fio retilíneo da nossa vida começa a enrolar-se, ligar-se a outros pontos, encadear-se pacientemente ao longo dos anos. Como o fio que pacientemente entrelaçado forma colcha, toalha ou cortina, a nossa personalidade começa a ganhar forma e contorno. A nossa personalidade torna-se complexa, começa a criar dobras e a fragmentar-se. Multiplicamo-nos. Freud dizia que somos formados por três personagens distintas. Rubem Alves vai mais longe e afirma que, ao longo de nossa maturação, acolhemos em nós, sem muitos critérios, uma verdadeira legião de personalidades: somos muitos, a exemplo do possesso do Evangelho. Talvez ambos tenham razão. O fato é que deixamos de lado a simplicidade de nossa infância e embarcamos primeiro na aborrecência e, em seguida, na indolescência. Haja paciência daqueles que nos cercam… Pouco depois vêm os primeiros passos da idade adulta. Por esta altura, muitos já conseguiram saturar a própria vida com uma quantidade tal de nós que não são capazes de vislumbrar uma possibilidade, mínima sequer, de desembaraçarem-se de todos os problemas que eles mesmos teceram: drogas, gravidezes precoces, violência, delinqüência...

Crescer é inevitável e bom. Amadurecer é melhor. Crescer é acumular nós de mal-entendidos ao longo da vida. Amadurecer é aprender a desfazê-los. E como se não bastassem os nós inevitáveis com que a vida nos brinda a cada dia, muitas pessoas se encarregam de complicar aquilo que não é complicado na nossa existência. Somam nós aos nós. Você já reparou no relacionamento conflituoso e racionalmente inexplicável que muitas pessoas estabelecem, marido e mulher, pais e filhos, namorado e namorada, chefe e subordinados?

Há um momento, porém, um ponto de viragem, em que vislumbramos o fio da meada da nossa vida. Tomamos o fio em mãos, puxamo-lo e vemos um nó desfazer-se. Não é muito, mas já é algo que nos anima e nos descortina novas possibilidades. Sentimo-nos leves, abandonamos cargas e juízos inúteis. Vislumbramos um início de caminho. Principiamos a amadurecer.


Jesus dizia que, para ingressarmos na dinâmica do Reino, precisamos tornar a ser crianças. Pouco paramos para pensar no alcance dessas palavras de Jesus. É claro que ele não nos quer eternamente pueris. Sobre nossa infância o que de melhor podemos dizer é: ainda bem que foi boa! Mas também dizemos: ainda bem que passou! Crescemos e amadurecemos, felizmente. O que Jesus pede para retermos ao longo de nossa vida é a simplicidade dos relacionamentos e dos afetos, como as crianças. Ele nos lembra a necessidade de mantermos a espontaneidade e o brilho do olhar da criança: brilho de vida. O Alberto Caeiro, guardador de rebanhos e morador dos campos, compreendeu a arte de bem viver, viver com simplicidade. Foi ele quem disse:

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Nós como as árvores são árvores,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio onde ir ter quando acabemos…
Nó desfeito após nó desfeito, consumimos os anos de nossa vida. Ao se desfazerem velhos nós, surgem novos. É natural. Mas ao fim, resta-nos um último nó, cuja responsabilidade em desfazê-lo não nos cabe a nós. É o tênue nó do tempo que, de forma inesperada para uns ou serenamente aguardado para outros, rompe-se. Desfeito ele, o tempo desabrocha e se plenifica. Contemplamos a eternidade presente em cada instante de nossa vida. A irmã morte beija amorosamente nossa face, a terra acolhe maternalmente nosso corpo em seu ventre e mergulhamos, enfim, na plenitude da vida Trinitária.


E aí, companheiro? Já agarrou o fio da meada da sua vida?


Beijos meus cheios de, luz, paz, amor, fé e esperança no Cristo ressuscitado!


3 comentários:

Nilda Biagio disse...

Olá Rosane
Lindo texto...obrigada por compartilhar!!!
Bj
Nilda

Marúzia disse...

Que texto maravilhoso! Ao terminarmos a leitura, estamos leves e de alma lavada. Obrigada por nos proporcionar esse momento.
Beijos

Frei Fabiano Aguilar Satler, ofm disse...

Obrigado, Rosane, pela divulgação do texto. Fico feliz que o texto tenha podido comunicar algo de bom a vc. Abraços,

Fr. Fabiano